Sobre o filme A Vida é Bela



Guido, judeu italiano, é daquelas pessoas que, pela natureza de sua própria índole, jamais passariam despercebidas em qualquer lugar. Um trapalhão desinibido e extrovertido, alegre, com a piada na ponta da língua esperando o momento oportuno para ser contada. Um homem que incomoda pela comicidade de um comportamento pueril em plena vida adulta, mas que conquista pela naturalidade de um coração autêntico, leve e simples, comprometido unicamente em ser quem é. Dentre suas cômicas peripécias, começa a se encantar mutuamente com a srta. Dora. Uma donzela em perigo, necessitando ser salva de um casamento mal arranjado do qual não deseja participar, a qual Guido vai conquistando, aos poucos, com seu humor e comportamento peculiar, a ponto de ouvir um "me tire daqui" dela, em plena festa de seu indesejado casório. Os dois terminam fugindo dali para constituirem o próprio lar e ter seu o seu primogênito, Giosué. Coincidindo a infância inocente de Giosué com a ascensão do Nazismo na Europa, Guido tenta preservar a ingenuidade do filho curioso, disfarçando para ele ações racistas e intolerância religiosa dos nazistas em alguns momentos. 
Devidamente apresentada a personalidade central de toda a trama, Guido, tem início a segunda parte da narrativa. Quando a srta. Dora é surpreendida, ao chegar em casa, com o cenário de desordem e vazio. Guido e Giosué haviam sido encaminhados para o campo de concentração. No caminho para a estação de trem Giosué pergunta ao pai sobre o motivo da viagem, este, sem saber o que dizer para disfarçar o nervosismo expresso em risos, diz que é uma surpresa de aniversário. Esta cena retrata bem o que o pai da Logoterapia, Viktor Frankl, quis explicar quando disse em seu livro "Em busca de sentido", ao rir após ter sido apontado no campo de concentração como a próxima vítima em potencial do "banho": "numa situação anormal,  uma reação anormal simplesmente é a conduta normal".  Enquanto isso, com o amor de uma mãe coruja e uma esposa fiel, Dora pede que os oficiais lhe permitam subir ao trem que seguiria o mesmo destino trágico. Chegando ao lugar, porém, as mulheres são separadas dos homens, e Dora, apartada definitavamente do convívio de seus dois amores.

Daí em diante segue o drama que guiará todo o resto do filme: o amor de um pai que se esforça por dar significado à vida do filho em meio à uma realidade trágica. E a maneria que ele encontra para isso é contar uma narrativa própria para entreter a criança: a de que estão participando de um grande jogo, cujo prêmio será um tanque de guerra. Aqui, me recordo da décima aula do curso sobre o Rosário do prof. Luiz Gonzaga de Carvalho Neto, disponível em duas partes no Youtube sob o título "As narrativas de uma vida com sentido", em que ele explica sobre como a vida humana depende de narrativas com um determinado foco específico. Quando crianças, explica o professor, temos a necessidade de fantasiar, dar vazão ao potencial imaginativo criando narrativas fictícias nas brincadeiras, que se desfarão ao seu fim, para dotar de sentido a nossa infância. É precisamente isto que o Guido faz ao seu filho. Narra a realidade do único modo pelo qual ele poderia apreendê-la: como uma imensa brincadeira, um jogo divertido, em um lugar bonito e interessante. 

Na cena mais cômica da trama Guido é responsável por traduzir do alemão para o italiano as regras do confinamento no campo de concentração, enquanto estão sendo anunciadas pelos oficiais para os seus companheiros de cela. O que ele faz, então? Para não assustar o filho, começa a dizê-las como se fossem as regras do "grande jogo" sendo ensinadas, o que deixa os outros confusos, mas alcança seu objetivo com praticidade e bom humor.

Outra cena marcante no filme é quando o Dr. Lessing, médico viciado em enigmas e charadas, que conheceu o Guido em outras épocas, chegando a simpatizar com ele e se tornarem próximos, o encontra agora no campo de concentração e diz querer conversar com ele em particular e com urgência, preenchendo o coraçãozinho do pobre homem com uma precipitada esperança de sensibilidade por parte do bom doutor. Dando a ajuda como certa, qual não foi a decepção de Guido quando, com cauteloso disfarce, o Dr. Lessing parou enfim para lhe falar do assunto urgente que lhe acossava a consciência e tirava-lhe até o sono: um novo enigma não resolvido que lhe fora enviado por um colega. 

Estava ali, representada nua e crua numa cena, a capacidade de indiferença e frieza que acomete tanto a humanidade. O desprezo pelo sofrimento alheio, a falta total de empatia, de uma forma tão natural que o seu autor nem sequer a percebe. 

Recordei outra referência do Viktor Frankl no mesmo livro supracitado. Em suas palavras: "A dor física causada por golpes não é o mais importante por sinal, não só para nós,  prisioneiros adultos, mas também para crianças que recebem castigo físico! A dor  psicológica, a revolta pela injustiça ante a falta de qualquer razão é o que mais dói  numa hora dessas. Assim é compreensível que um golpe que nem chega a acertar  eventualmente pode doer até muito mais. Exemplo: certa vez estive trabalhando  numa estrada de ferro, em plena tempestade de neve. A tempestade seria razão  suficiente para interromper o trabalho; e para não sentir muito frio, aplico todo o  ímpeto em "entupir" com pedras os espaços debaixo dos trilhos. Paro por um momento, a fim de tomar fôlego, e me apóio na ferramenta. Por infelicidade, no  mesmo instante o guarda se vira em minha direção e pensa naturalmente que estou  vadiando. O que me dói agora, apesar de tudo e a despeito da insensibilidade  crescente, não é a perspectiva de alguma carraspana ou bordoada, e sim o fato de  que para aquele guarda essa figura decrépita e esfarrapada, que só de longe lembra  vagamente um ser humano, não merece sequer uma repreensão. Ao invés, ele não  faz mais do que levantar uma pedra do chão e, como se estivesse brincando, atira-a em minha direção. Desse jeito - foi o que senti - chama-se a atenção de um bicho  qualquer, assim se adverte o animal doméstico de seu "dever", o animal com que se  tem uma relação tão superficial que "nem" se chega a castigá-lo."  

A sequência da trama mostra Guido se expondo a riscos incríveis para, em diversas situações, livrar o filho da morte, sempre demonstrando sua habilidade de fingimento engraçada e necessária, sempre lembrando de sua amada e tentando contactá-la. No seu último ato, enquanto mantém seu filho escondido sob recomendações importantes de só sair do esconderijo quando não houvesse mais ninguém, aproveitando a balbúrdia que o fim iminente da guerra causara no campo, ele sai a procura da esposa, mas acaba sendo pego. Para que Giosué continuasse onde estava e não fosse descoberto, Guido pisca para ele e começa a marchar de maneira engraçada para impressionar o menino e causar-lhe a impressão de que estava tudo bem. Foi levado ao paredão onde foi, enfim, executado.

É interessante notar que as melhores virtudes do ser humano, frequentemente, só vem à tona na confrontação com as piores circunstâncias. É no contraste fundamental entre o bem e o mal, ambos manifestados nas escolhas da vontade humana, que identificamos com clareza os traços mais significantes que integram a nossa natureza. Uma das verdades fundamentais que podemos perceber sobre o amor é esta: quem ama verdadeiramente, necessariamente, faz papel de bobo, de palhaço, de louco, de trouxa. "A loucura de Deus é mais sábia que os homens". Essa é a loucura de quem ama em plenitude. Pois esse faz-se capaz de abandonar a vaidade de preservação da própria imagem e mesmo da própria vida, e abraçar o ridículo, a humilhação, a zombaria, a vergonha, em prol de algo melhor que só o seu coração consegue ver. Despojados do próprio ego, não temem as críticas, os julgamentos, as perseguições, ou qualquer outro fardo fruto do amor a que se dedicam. Se vulnerabilizam no lugar daquilo a que se propoem proteger. Tudo enfrentam e suportam em nome do que consideram mais importante que si mesmos, o sentido de suas vidas, e o fazem com espírito de desprendimento heróico do próprio egoísmo. São a prova daquilo que diz o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho: "a coragem nasce do amor ao próximo, é só isso. Então, não se preocupe em ser corajoso, pois a coragem é um resultado, não uma causa. A causa é o amor ao próximo ou a falta dele.” E isto os grandes homens já testemunharam com folga. Foi dessa forma que os fariseus, doutores da lei e as demais pessoas que condenaram o Cristo à cruz o perceberam, como alguém tolo o suficiente para morrer por pecadores inúteis, digno de zombarias e ultrajes de todo tipo. É dessa forma que tantos ainda o veem! Foi dessa forma que os atenienses viram Sócrates querer morrer pela verdade, pagando o preço pela humilde sinceridade que o expunha ao honrado fim. 

O amor verdadeiro não sente a necessidade de ser compreendido, mas de apenas alcançar a sua finalidade, mesmo que o preço por isso seja a própria vida, e o é com mais frequência do que se imagina. No fim, para quem escolhe amar, mesmo aparentando dar errado, dá certo. No caso do filme, foi o sacrifício do pai que permitiu o reecontro entre a mãe e o filho.


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