Identificando um invejoso
A inveja é um dos grandes males da história humana, classificada pela sabedoria católica como pecado capital. Pois é uma árvore maldita que semeia suas raízes por todos os corações medíocres.
Sentindo-se energizado a agir, impulsionado à ojeriza mais nefasta, o sujeito invejoso não se percebe numa posição duplamente desesperadora, até que esteja se afogando num mar de complicações emocionais graves. Por que a inveja só se revela uma farsa venenosa quando, de posse daquilo que tanto ambicionou, o sujeito vê-se insatisfeito e sente escapar como areia por entre seus dedos a ilusão egoísta que abraçou.
O paradoxo do invejoso consiste no seguinte: ele vive em sua órbita, sempre em sua sombra, se alimentando de suas sobras. Porque você influencia diretamente sobre os seus desejos. Ele vê como amplamente desejoso tudo o que você mais quer ou quis, sua psicologia se filtra pelo que você valoriza e ele se sente na obrigação de copiar isso, mesmo que inconscientemente. Te admira e, por isso, te imita. Te imita e, por isso, te odeia. Porque se sente incapaz de imaginar, conceber ou conquistar qualquer coisa sem que isto esteja de algum modo relacionado a você. Tão logo você avance um passo não tardará em perceber, em pouquíssimo tempo, que lá estará a figura indo pela mesma direção ou indo numa direção curiosamente semelhante. Não suporta ver crescer aquele(s) a quem mais pretende se igualar ou superar sem com isso sentir-se inferior. Não é que ele queira ser você, mas ele deseja viver o que você viveu, ter o que você teve, sentir o que você sentiu. Seja em questões de hábitos, estilo, hobbies, vestes, gostos, amores, não importa, a música de suas metas sempre tocará conforme esta melodia.
Piorando o quadro da coisa, há ainda, no coração do invejoso, o desejo de que você perca, ele se contenta em seu íntimo com isso. Se alegra nas suas derrotas. Não quer que você tenha o que ele não tem, nem que consiga o que ele se percebe incapaz de possuir ou conquistar. Quer o seu fracasso, e se não o provoca, no mínimo, se regozija com ele.
Outra peculiaridade do invejoso é a sua completa incapacidade de apreciar com sinceridade o bem feito pelo alvo de sua inveja, sobretudo quando sente-se inferior por não conseguir fazê-lo, lança-se em então numa rivalidade competitiva irracional e ególatra. Salvo em caso de isso estar ligado a algum benefício próprio, nada de elogios, apoio ou incentivo público ao invejado, pois isso apenas aumentaria a sensação de distância entre eles e seria um golpe desconfortável no ego vaidoso. Por isso mesmo prefere as críticas gratuitas.
Lidar com invejosos é complicado, melhor seria deixá-los. Mas, percebida em si próprio, ainda que vagamente, a inveja deve ser morta desde o início. Desde que cultivemos o hábito da meditação, podemos perceber suas sementes e arrancá-las de nosso coração no princípio de sua germinação com certa facilidade. Precisamos, também, ser humildes para fazê-lo.

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