Resenha do livro "Sou uma pessoa bonita", de Eliana Trindade Ferreira.
O que faz uma pessoa ser bonita? Ou melhor, o que permite a uma pessoa sentir-se, descobrir-se e considerar-se bonita? Em tempos de bioascese, onde a construção da própria personalidade parece ter sido completamente substituida pela exaltação do corpo, é isto o que nos responde a autora Eliana Trindade Ferreira em seu livro "Sou uma pessoa bonita". E o faz com embasamento bíblico, apoiando na vasta sabedoria milenar cristã a sua argumentação central. De fato, a palavra beleza tem raiz no sânscrito Bel-Et-Za e significa "a casa onde Deus brilha". Ora, poucas coisas nos permitem ver com tanta clareza este brilho divino do que as Sagradas Escrituras.
Na primeira parte a autora demonstra -- inspirada também numa antiga palestra do Pe. Léo, na Canção Nova -- como o fato de sermos bonitos deriva naturalmente da bondade divina, pois Deus, com seu amor perfeito e preciso, nos fez a sua imagem e semelhança. Não obstante necessitamos compreender com que medida nos olhamos, se com a de Deus, se com a dos padrões humanos que nos prendem a conceitos inatingíveis e potencialmente neuróticos de beleza. Esses padrões são ditados pela mídia e pela moda, sobretudo por interesses capitalistas e comerciais, e suas consequências podem ser prejudiciais tanto para a saúde física quanto psíquica das pessoas. "Provas disto são o emprego constante de termos como vigorexia e metrossexual, o uso indevido de suplementos e anabolizantes, os implantes de silicone, o hábito de se depilar, as cirurgias de lipoaspiração e outras. "Portanto, ficamos preocupados em nos adequarmos aos conceitos e valores deste mundo, enquanto deveríamos estar buscando o que agrada a Deus e enxergar-nos através dos olhos Dele."
Ela nos lembra, também, em outra parte, que a beleza física -- estética -- é passageira. Exatamente o que o canta o Gabriel Pensador no seu Rap do feio: "A beleza é passageira, mas feiúra é um bem que a gente tem pra vida inteira", enquanto que a beleza de ser o que fomos criados para ser é um convite para a eternidade. Concernente a isto, no documentário "Why beauty matters", o filósofo Roger Scruton, explanando a teoria platônica de beleza, diz: "Quando vemos beleza em uma pessoa, é porque vislumbramos nela a luz da eternidade brilhando de uma fonte divina, além deste mundo. A bela forma humana é um convite para nos unirmos a ela, espiritualmente, não fisicamente. O que sentimos sobre beleza é como o que sentimos sobre religião: não é um sentimento físico."
Em outro ponto da obra a autora faz a citação do Sermão da Montanha, na parte em que Jesus ensina sobre a ordem ideal de nossas preocupações: “Por isso é que eu lhes digo: não fiquem preocupados com a vida, com o que comer; nem com o corpo, com o que vestir. Afinal, a vida não vale mais do que a comida? E o corpo não vale mais do que a roupa?” (Mt 6, 25). Desenvolver a inteligência e as virtudes, exercer valores e princípios, são as atividades essenciais para as quais devemos nos voltar, e que nos tornam belos. Toda tentativa de mudar algo que nos desagrade exteriormente não altera em nada nossa percepção de nós próprios. O problema é interior. A insatisfação com a própria aparência é fruto de algum tipo de desajuste interno. Uma pessoa que não se sente bem consigo mesma deve estar apostando as suas fichas em ideias vazias, deixando passar despercebida a própria singularidade no mesmo instante em que Deus a ama e deseja daquele modo. Há uma ordem e uma hiérarquia nas coisas da vida que nos faz enxergar essa harmonia das coisas belas, mas esta se encontra oculta, soterrada por diversas mentiras e erros na cabeça de quem não se livrou destes cacoetes mentais. "As pessoas, de maneira geral, se preocupam com a beleza externa. Não saem de casa sem se olhar no espelho. Cabelos alisados, rosto maquiado, corpo malhado, inquietação com a roupa, com as formas. “Engordei?” ou “Estou magro/magra demais?” Mas será que temos esse mesmo cuidado com a beleza interior?".
O homem é o ponto ápice da criação, sua parte mais bela é sua alma, reflexo direto da pessoa de Deus. Mas, às vezes, essa ordem é invertida: é mais fácil cuidar das coisas importantes mas não essenciais, que das urgentes. Uma pessoa realmente saudável de alma e de mente, que não negligencia seus devidos cuidados, dificilmente não se tornará bonita também esteticamente. Mas uma pessoa que recorre à cirurgias plásticas, medicamentos e procedimentos artificiais de diversas categorias, não conseguirá só com isso tornar-se alguém mais virtuoso, personificará a figura do sepulcro caiado. Essa ordem também é etária, a cada idade cabe o tipo de beleza que lhe é peculiar. Espera-se ver pureza nas crianças, agilidade física nos adultos e sabedoria nos idosos. Quando se altera isso recorrendo a métodos anti-naturais baseados em padrões impossíveis, o tiro sai pela culatra, e o resultado que vemos tende a ser bizarro.
No caso do ser humano, ser bonito é ser bom, e ser bom é imitar a Deus. Se uma obra de mãos humanas é dita tanto mais perfeita quanto mais se assemelhe ao seu modelo natural, com mais razão se dirá que a perfeição humana é imitar aquele que é, a um só tempo, seu modelo e Criador.

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