Os males da Carência
Que todo ser humano é carente todo mundo sabe, que essa carência natural pode se tornar um problema bem maior, também. O excesso de carência faz ver em qualquer sinal de atenção, um afeto especial de amizade ou amor mesmo quando claramente não há nenhum dos dois. O menor gesto de gentileza ou simpatia alheio é confundido pelo coraçãozinho vulnerável como forte indício de ligação pessoal, além de criar ilusões capazes de arrastar o indivíduo a contextos improdutivos ou mesmo previsivelmente conturbados, já que o bom senso fica comprometido pela burrice momentânea ( ou permanente ).
Carência significa falta de algo que precisa ser buscado. Esse algo é, essencialmente, Deus. Mas, quando mal direcionadas, as carências tendem a conduzir o indivíduo a um precipício formidável de enganos. Aos poucos a sua fraqueza emocional vai o direcionando, seja pela pressão do cumprimento de papéis sociais previamente definidos pela cultura, seja pela própria mediocridade moral de cada um, a um ciclo de queda e declínio cada vez mais grave. O indivíduo passa a agir exatamente como fizeram João e Maria na estrada para a casa de doces, de migalha em migalha, de ilusão em ilusão, psicoticamente, até a armadilha final. Na vida real, porém, a história não termina bem como na ficção. Com a carência funciona assim: quanto mais se tenta satisfazê-la nas fontes erradas, maior ela se torna. Quanto mais a alimenta, mas fome ela sente.
Pessoas carentes ( ao ponto da dependência afetiva ) sentem a necessidade de aprovação constante, precisam se sentir queridas, admiradas, e lançam mão ( sem aparente noção do que estão fazendo ) de atitudes que comprovam isso: fingem amizades ( fingem gostar de quem não gostam ); se submetem aos caprichos alheios por medo de causar uma impressão de força ( ser forte não é ruim ), por este mesmo motivo, calam sua opinião para não desagradar, validam ( só para terem validadas também ) o comportamento dos outros mesmo quando este claramente lhes deixam desconfortáveis, incomodadas e ofendidas, fingem estar se divertindo para aparentar simpatia, não revelam a impressão negativa que têm sobre alguém, mesmo quando isso é necessário; aceitam os interesses alheios sobre si, mesmo quando os identificam como inadequados; detestam a solidão mesmo que seja breve e se contentam com qualquer companhia por medíocre que seja. Por todas essas razões as pessoas muito carentes não estão no comando de si, mas vão, arrastadas pelo sentimento de necessidade de atenção ou de inferioridade, sendo conduzidas pelos relacionamentos aos quais se submetem.
As pessoas que estão carentes ( apenas estão ), precisam se dedicar a ter a hierarquia de prioridades da vida devidamente ordenada, para não correr o risco de fazer da falta de algo essencial ( trabalho, estudos, realizações, conquistas, verdadeiras amizades, espiritualidade, amor ) um motivo de carência profunda e fonte de dramas desnecessários. No aspecto familiar o caos se instaura: pessoas com carências mal direcionadas não se relacionam tão bem com a família, deixam, portanto, esta brecha se fracionar pelas suas demais relações. Na área das amizades há o risco de cair em companhias que reforçem traços de carência, seja por ter expectativas falsas ou desastrosas, no caso de amizade com o sexo oposto, seja por fazer coisas e frequentar lugares que ainda mais lhe esvaziam, no caso de qualquer amizade ruim. No aspecto amoroso há aquela possibilidade de, na ocorrência de rejeição ou dependência, o comportamento dar validade às expressões populares "matar o cachorro a grito", "estar na seca", "atirar para todo lado", posto que se aceita qualquer tipo de relacionamento que lhe dê a ilusão de ser desejado, se colocando até mesmo em contextos trágicos, por mais evidentes e evitáveis que sejam. É claro que os maiores danos são sempre pessoais, no íntimo da personalidade, transformar os canais importantes de relação espiritual em emaranhados indiscerníveis de relações humanas é uma estupidez comum. Evitar complicações deste tipo, que tomam a forma de uma bola de neve em constante crescimento, em qualquer área da vida, é um dever sagrado de consciência que quando descumprido cobra muito mais caro do que a disciplina e o esforço que seriam necessários para obedecê-lo.

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