O Tribunal dos tolos, ou: Quem são seus juízes?



Algumas opiniões se posicionam na sua vida como se fossem seus juízes. São na verdade — e na imensa maioria  — opiniões de tolos, que emitem julgamentos precipitados sobre o que veem na superficialidade das ações corriqueiras, sem se preocupar com a verdade mesma, mas tão somente com a própria opinião. Seja para favorecer a si mesmos ou outrem, não conseguem parar e pensar na distância que seu ego lhes coloca da realidade. 

Podemos, contudo, por eliminação, descartar algumas opiniões que não podem nos fazer bem por que são ilusórias desde a sua raiz, são imprecisas, ou falsas mesmo, são precipitações maliciosas, ou podem até ser bajulações e elogios sem coerência com nenhum fato, e portanto, sem fundamento. 

Convém, pois, selecionar a que opiniões darmos valor, isto é, a que opiniões dar o poder de influenciar a nossa trajetória de vida. Pois é isso o que, inevitavelmente, ocorrerá sempre. Não podemos evitá-lo por ser a influência mútua uma necessidade social própria do desenvolvimento humano. 

A primeira fonte de opiniões tolas e inúteis que conhecemos são aquelas que advém da comunidade, do suposto senso comum, da vizinhança, enfim. Esse primeiro tipo de influência, disseminada sobretudo no meio cultural do indivíduo, já lhe garante uma série de empecilhos mentais poderosos se ele deseja ter um pouquinho mais de independência social. Lhe dar com o medo de críticas, o medo de ir contra a corrente, de errar, o medo do ridículo, inibe algumas cabecinhas resignadas. Por isso, não por acaso, a maioria das pessoas que convivem conosco terminam por levar a vida sem grandes pretensões, adaptando-se ao que lhe é oferecido sem esforço de raciocínio pela cultura presente por mais tosca que essa possa ser, não tem a menor suspeita de que pode haver um algo a mais. Vencer essa barreira inicial , ou pelo menos enchergá-la, já é algo significante.
Se deparar com a segunda, no entanto, é ao mesmo tempo bom e ruim. É a influência que exercem sobre nós as pessoas que nos são mais próximas: nossos amigos e familiares. É bom porque sempre teremos diálogos que acrescentarão novidades, é ruim porque essas novidades as vezes podem representar um retrocesso, defeito, ou mera concordância afetiva. Assimilamos muito fácil o que vem de quem amamos, isso pode nos fazer contrair maus hábitos.
A terceira e mais enganosa fonte de opinião é você mesmo. Não duvide disso, você é, sem dúvida, a pessoa que mais se engana a si mesmo, que mais erra nos julgamentos e causa os próprios fracassos. Não confie tanto em si mesmo, pois isso é a maior prova de tolice, soberba, arrogância, egoísmo, prepotência, fraqueza. Você sabe bem do que estou falando: dos sonhos dos quais desistiu, das pessoas que decepcionou, das coisas que fez e se arrependeu, de outras que deveria fazer e não fez, tudo isso porque em algum momento fez um julgamento errado sobre algo, alguém, ou sobre você mesmo. Você já superestimou ou subestimou suas capacidades? Já achou ter aprendido algo sem nem mesmo ter se dedicado aos estudos seriamente? Já planejou mudanças que começariam na segunda-feira sem nem mesmo ter se exercitado em autodisciplina? Já deu por certo algo duvidoso e no fim se decepcionou? Já pensou que terá o amanhã para fazer o que precisa, amar quem precisa, mudar o que precisa? O que, aliás, é a maior das mentiras. Tudo isso é você quem diz a si próprio. Você não deve ser seu próprio juiz. Sua opinião, diferente do que pensa, é a que merece mais cautela. 

Descartadas as três primeiras fontes de opiniões duvidosas, o que nos sobra então? Se a mídia e os meios de produção cultural, as pessoas que nos são mais íntimas, e até eu mesmo posso me enganar, em que posso confiar?!
Ora, saber pensar é pré-requisito para levar uma vida de reflexão e triagem de informações, a fim de selecionar, não aquelas que nos legitimam os desejos mais prazerosos, mas aquelas que melhor descrevem a realidade ou se aproximam disso, ou seja, devemos buscar as opiniões mais verdadeiras possíveis. A opinião de Deus!
A coincidência entre os fatos da realidade e algumas opiniões só se manifesta com clareza em fontes de sabedoria milenares, provadas pela experiência dos sábios, comprovada pela vida e história dos povos, e passando pela experiência individual da existência. Um exemplo simples de opinião verdadeira é a composição dos ditados populares e máximas de sabedoria. As religiões se constituem, assim, junto à filosofia e à arte, como as fontes mais confiáveis. Mas tudo isso não advém também da cultura, da comunidade, das relações afetivas, da experiência pessoal da vida? Sim! Todos os canais são usados por Aquele que quer lhe falar algo, todos, sem excessão, mas é preciso cuidado porque reconhecer a diferença é sutil.  A opinião da massa, quando verdadeira, não o é por si mesma, mas tão somente por encontrar respaldo nas tradições firmadas pelo tempo, o mesmo vale para as outras fontes: a opinião da sua família, amigos, a sua, só tem validade quando se sustentam na proximidade com as opiniões mais confiáveis consolidadas pela história, e não por si mesmas. Essas coincidências merecem ser obervadas e valorizadas, não dá pra fazer isso se se vive desconectado completamente das grandes questões humanas. Honestidade, humildade, paciência e fé, também são elementos indispensáveis na busca pelo discernimento das realidades. 
Saiba eleger bem os juízes que compõem a tribuna da sua vida. Eles são mais poderosos do que você desejaria.


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